segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Um ônibus chamado pungência ou Ser nômade não é uma escolha

Estou aqui sentado nesse ônibus e à exceção de um missionário italiano com um livro sobre os Awá numa das mãos, todas as outras pessoas são tão comuns que me são estranhas.


No sacolejar não reconheço minha caligrafia. Na verdade, sentado aqui, não me reconheço.

Um enjoo constante revolve as minhas entranhas. Poderia ser um pressentimento, de que algo vai mudar, de que o pior já passou. Mas na verdade é apenas o fedor desse ônibus pungente.

Ou eu não sinto mais como eu sentia, ou agora sinto as coisas de uma maneira tão diferente que não reconheço o sentimento.

A vida é tão breve, sei que vou morrer logo. Por que a felicidade é tão escassa? Não é essa viagem que vai me responder. Não é.

O ônibus parou. Ainda bem. O mundo fede, mas esse ônibus fede muito mais.

Me sinto estranho. Hoje reclamo muito mais para concordar com os outros que reclamam de tudo o tempo inteiro e me encaixar. No fundo, sou extremamente grato, profundamente agradecido com o estado das coisas. Onde está o inconformismo?

Não é que eu ache errado ou chato demais as pessoas reclamarem. Em geral não é isso. É apenas uma fase da vida que estou atravessando. Uma fase em que reclamar gratuitamente vai apenas gastar uma energia de que não disponho.

Voltei ao ônibus e realmente sou um estranho. Não é que eu seja especial, sou apenas estranho. Assim como é estranho que o livro do missionário sobre os Awá seja em italiano.

Uma vez visitei a aldeia Awá-Guajah - na época da UEMA - eles são considerados os últimos índios nômades do Brasil. Isso é romântico no papel, escrito em italiano, mas é patético na vida real. E é triste, muito triste de ver.

O motorista deu quinze minutos para nós almoçarmos. E somos nós quem estamos pagando passagem. Regras são regras. Para os Awá, ser nômade é uma regra proscrita.


2 comentários:

Silvia Whatever disse...

Ah, que post! Pegue mais ônibus fedorentos, desde que eles garantam posts lindos assim.. :D

(mas para onde você estava indo? conta!)

José Wilson Carvalho de Mesquita disse...

Para meu trabalho...a linda (mas muito longe da praia) Barra do Corda.